sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Novo Conto: A Justiça do Palhaço

Olá senhores e senhoras hoje trago para vocês um pequeno estudo literário que ando fazendo, no inuito de desenvolver um personagem e uma ambientação para ele, bem espero que gostem e não deixem de comentar me dando uns toques de como melhorar!


Recife minha cidade, de grandes prédios frios e esplendorosos sobrados abandonados, de ruas estreitas, que revivem dias e noites passadas, de avenidas largas, que encarnam um progresso não acontecido. Recife, meu palco, meu picadeiro, onde o palhaço surgiu, onde eu apresento o espetáculo da justiça.
Sentindo o vento tocar a minha máscara eu danço, montado em minha moto, na agradável melancolia de mais uma madrugada, procurando um holofote, uma cena que propicie ao espírito da justiça mais um momento belo no decadente picadeiro que é a noite recifence.
Viro a esquerda, meu pneu canta e cinquenta metros depois eu encontro uma oportunidade de show, meu sangue ferve, me causando a mesma sensação que os gritos do público me causavam em um passado enevoado,  lá estava a cena montada apenas a minha espera.
Eu desço da moto, arrasto minha corrente, observo o que se passa ao longe, um homem pálido e forte prendendo com seu corpo e braços uma mulher negra, sufocando-a com a mão direita, tocando-a com a mão equerda, sinto entrar pelas minhas narinas o cheiro do desespero e o odor fétido do prazer que aquele homem sentia ao protagonizar aquela terrivel situação, diante de tudo que vi aproximei-me aos poucos.
Em passos pesados me inseri na cena, o espetáculo da justiça deveria sem mais demoras começar, minha corrente arrasta-se pelo chão , os olhos da garota me fitando, clamando por socorro, friamente os percebo, não posso me emocionar, ceder a emoção é permitir que cresça o desespero e a irracionalidade, frieza é do que preciso.
Finalmente o idiota me percebe, ele se assusta com minha presença, ridiculariza minha máscara, as faixas manchadas, com o que um dia foi meu próprio sangue vivo, meus olhos cinzentos e quase mortificados no meu jeito de olhar, o curioso e cômico nariz vermelho, os cabelos longos e desalinhados que com minhas vestes negras completam o que para muitos seria uma fantasia, mas que para mim é de fato meu corpo.
Vejo suas mãos tremerem, elas fraquejam e aquela que segurava a garota perde demais a força, a jovem mulher se solta e vai, aos prantos correndo para longe de seu trauma, fico assim só com meu adversário, não haverá plateia viva esta madrugada, apenas as frias armações de concreto.
O seu medo o faz balbuciar o meu nome "Palhaço" em um misto de terror e xingamento. Eu olho no fundo dos seus nojentos olhos, projeto um pequeno e sombrio sorriso, eu o vejo tremer ainda mais, ódio e medo então se misturam com adrenalina começaria o espetáculo agora.
Com toda a agressividade, antes destinada a mulher, ele parte para cima de mim, projeto minha corrente em direção ao seu punho esquerdo, ela o prende e eu puxo seu musculoso corpo fazendo com suas pernas percam o equilíbrio, ele cai e seus lábios sujos beijam violentamente o chão.
Ele se levanta, lábios cortados e provavelmente alguns dentes quebrados, tentando usar a minha corrente contra mim ele me puxa, deixo-me levar por sua força, em seu desespero cólera ele tenta me acertar um soco, mas sua lentidão é risível, seu golpe passa sem tocar meu rosto não me causando mal nenhum.
Minha bota vai de encontro com o joelho do meu adversário, um chute bem feito com a ponta da bota feita de aço faz muito bem o seu trabalho, imediatamente  o "machão" branco cair, provavelmente com o joelho bastante lesionado, primeiro ele se ajoelha, mas a dor insuportável leva-o ao chão, ele geme de dor, está quase tudo acabado, exceto pela falta de um grande final.
Arrumo minha corrente na mão direita e me preparo, observo os olhos do moribundo, que confuso pede-me por misericórdia, mas eu não tenho misericódia, ele não teve compaixão com a garota, não tiveram compaixão comigo, faço assim valer minha vontade, chicoteioduas vezes as costas do canalha, minhas correntes afundam na carne, trazem para fora o sangue ao som da quebra de alguns ossos. Meu adversário desmaia, tudo acaba, recebo os aplausos silenciosos da justiça e a luz do picadeiro se apaga.
Banhado pela escuridão e pela luz pálida das estrelas distantes eu subo em minha moto e sigo em frente, olho por um minuto o céu e sei que os anjos me observam com temor e admiração, demônios fogem de mim, ficam apenas os meus fantasmas, que me levam para onde a justiça precisa rir uma gargalhada de vingança.