quinta-feira, 17 de março de 2016

CONTO: Eu, um senhor ?

Olá leitor e leitora! Hoje estamos trazendo para vocês um pequeno conto cheio de ação para inspirar e entreter um pouco você, espero que gostem! 


Pare e pense. Respire Fundo. Chegou a hora.

Posso sentir meu coração rugir dentro do meu peito e em minha testa gotas pesadas de suor dançam entrando nos sulcos que formam minhas linhas de expressão.

Chamas bruxuleiam. A noite é fria e escura. Mas alguns telhados lá fora queimam.

Pare e pense. Observe e haja. Chegou a hora.

Aperto a espada. Envolvo o couro que cobre o cabo com meus dedos escorregadios. Minha mão treme e insiste em me lembrar que aquelas criaturas são feras selvagens. Desejo permanecer escondido, imóvel atrás da tapeçaria, mas não posso, eu empunho a espada do barão. O barão que os monstros assassinaram.

Agora estão lá, próximo a mesa de banquetes, fungando as mulheres com seus focinhos de porco e lambendo suas presas enormes enquanto crianças acorrentadas tremem em choro mudo sob a débil sombra do trono de pedra e homens contorcem-se em impotência. Apenas duas criaturas, armadas com machados e vestidas com corseletes de tecido mal cheiroso e mesmo assim todos os três guardas, o barão, sua esposa e seus filhos estavam mortos.

Só sobrara eu, um servo, de talento com a espada é verdade, mas condenado pela falta de linhagem ao rude serviço. Só sobrara eu, que fora açoitado por ser pego manejando as espadas de madeira destinadas aos pequenos senhores deste também pequeno baronato.

Acaso vença, serei por direito de bravura o novo barão? Não importa, porque a morte é certa.

Firmo o passo e não escondo minha presença. A garganta explode em um grito rouco e ardido quase que com um pequeno gosto de sangue. Os dois monstros viram-se com agilidade, seus pequenos olhos vermelhos não escondem a surpresa e seus braços tortos e esverdeados não tardam a achar o cabo dos machados.

Sinta a luta. Esqueça o medo.

Arremesso uma das cadeiras de madeira pesada na direção do mais ágil e o retardo. Com o punho firme estaco a espada no segundo monstro. Sinto a lâmina afiada romper a fibra do tecido, contudo sem ferir a sua carne. O primeiro mostro então golpeia-me com o machado enferrujado e por reflexo meus pés saltam para a mesa, aterrissando sobre ela, trêmulos. O segundo  vem sobre mim afim de cortar-me as duas pernas de uma vez, mas sobre tamanha fúria eu salto e caio rolando sobre a palha do salão às suas costas.

Ainda vivo. Não posso perder tempo.

Reviro-me, quase como uma serpente e em ato desajeitado rasgo as  suas costas. Seu urro é feroz, tal como o de um animal. Na espada do barão um filete de sangue negro escorre, enquanto no fétido corselete o tecido é embebido. Aprumo então o punho e de joelhos, dou-lhe uma apunhalada. A fibra dura de sua carne sede espaço a ponta da espada , vejo-a florescer do seu peito, banhada da negritude de seu sangue inferior.

Vitória!

Mas, uma dor mordaz toma-me! Como pude me deixar levar por erro tão infantil? O machado do outro castigara-me e meu sangue e  carne agora diante dos meus olhos voavam pelos ares. Cônscio da aguilhada, percebi que fui atingido no ombro, por sorte o esquerdo. Apesar que tenho certeza de que era o pescoço o alvo pretendido por este imundo.

Preciso ter muito cuidado.

Parece-me que do meu ombro um rio de cor vermelha acaba de nascer. Pontadas profundas levam aos meus olhos o atordoamento da dor como pequenas estrelas escuras que invadem, fazendo-se e desfazendo-se na visão. Mas continuo e mergulho na luta.

Machado e espada se chocam. Faíscas espalham-se no hálito acalorado pelas cinzas das construções inflamadas. Olho fundo nos olhos vermelhos do monstro e sinto que ele faz o mesmo comigo. Medo... Escuto sua voz gutural balbuciar, abrindo-se em uma sorriso horrendo, sua bocarra demonstrando seus dentes tortos e pontudos. Uma visão de terror.

Perco as forças em meu braço. Os pés retraem-se. Tomo a espada com as duas mãos, mas é inútil. Meus nervos dos dedos tremem. Os joelhos cedem e minhas costas encontram o chão, enquanto meus lábios bebem da viscosa baba que recai sobre eles, provinda da gargalhada do assassino.

É meu fim, estou sentindo. Não! Não! Preciso ter forças.

O Machado do meu inimigo desce sobre o meu ferimento. A minha voz é dor e minha boca é trombeta de sofrimento. E a lâmina enferrujada devora a carne, devora nervos, separando o meu membro do meu corpo. Meu sangue, ainda quente, toca-me as costelas. Ainda sinto o braço, mas ele não me pertence mais, jaz ao meu lado apenas.

O desespero escala-me do estômago a garganta. Não cedo. Procuro uma última brecha e lá está, sim, tão pequena que determinará meu destino. Respiro. Apoio o meu pé em alguma parte do corpo do monstro e empurro com toda a força, crio um espaço e apunhalo então a sua carne com um golpe fraco, mas suficiente. Relaxo o pé e deixo que caia sobre a lâmina.

Escuto o grunhido do seu último suspiro e sinto o seu mau hálito. Está morto.

As mulheres me levantam em lágrimas de felicidade, eu liberto as crianças e sento no trono. Meu sangue escorre sobre cadáveres, palha e rocha. Todos me olham, perdidos, assim como eu. 

Seria eu agora o senhor? Não sei...


Por hoje é só!
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